domingo, 19 de outubro de 2008

O mundo infinito

A janela do quarto está aberta como todos os dias. Não importa se está calor ou frio, ela sempre está aberta. Através dela escuto quase tudo o que acontece no prédio. Quem está sofrendo subindo as escadas, quem está cozinhando e até quem está no msn. Mas hoje a janela me traz jazz. Um puro e suave jazz. Gracias vecino. O jazz entra no meu quarto enquanto uma frase martela a minha cabeça: Una pizarra mal escrita. Esse é o tema do meu primeiro relato em espanhol.

Sentada numa cadeira em volta de 15 pessoas, sou a mais nova e a única de fora da Espanha. Todos se apresentam e confessam que não conseguem terminar um conto, uma história. Querem saber porque um livro é tão bom e outro tão é chato. Eles têm tantas perguntas, que me assusto. Eles me olham... e eu não tenho perguntas, só tenho mesmo é falta de inspiração para meu livro.

Por que escrevemos? Foi a primeira pergunta que ele fez. E enquanto todos iam dizendo tudo que vinha na cabeça, eu fiquei minutos pensando. E eu só tinha uma resposta: Porque necessito! Porque necessito desabafar!! Mas a resposta correta não é essa. Escrevemos porque temos algo a dizer para alguém (leitor). Isso me fez lembrar da minha primeira aula de jornalismo. E isso me irritou. Maldito ciclo. Mas ai, ele me acordou: A literatura é um mundo infinito. Puta que pariu, a literatura é um mundo infinito na qual você caminha sem percepção de encontrar uma saída. Depois dessa conclusão, dei um passo à frente e falei para mim mesma: Bem-vinda ao mundo infinito Mari!

A literatura se divide em duas partes: superficial e profunda. Nunca tinha parado para pensar nisso e muito menos antes de começar a escrever. Sim, porque se você tem na cabeça a superficial e a profunda antes de escrever, você tem o que você quiser, um relato, uma poesia, uma narrativa, uma criativa, um romance, uma análise até. Foi aí que olhei para frente e vi o menino Lucas e o Urso me olhando. Eu sabia o que eles faziam ali. Eles queriam saber se eu tinha a superficial e a profunda. Tive vergonha. Desviei o olhar e comecei a pensar. Estou escrevendo um livro infantil. Meus personagens têm tanta vida que os vejo às vezes andando comigo por Barcelona. Pode ser um papo de louca, mas se um dia você criou personagens, garanto, eles tem mais vida que você possa imaginar. Eu tenho personagens vivos e nunca me preocupei com a superficial e a profunda. Analisei durante um tempo e olhei para eles novamente e só pude dizer: UFA! E eles sentados no chão no meio da sala se abraçaram e deitaram. Estavam mais aliviados que eu. Sem saber, eu tinha e tenho a superficial e a profunda! Olhei de novo para os dois, estavam ali no chão trocando altas idéias. Pedi para que saíssem. Sim, sou ciumenta. Não quero que ninguém dali conheça os dois assim tão rápido. Eles saem tristes. Volto a prestar a atenção na aula. As comparações já passaram por Cem Anos de Solidão e por incrível que pareça os contos infantis estavam por ali, agora falávamos do Patinho Feio e da Chapeuzinho Vermelho.

Fim. Saio de lá e vou direto na Casa Portuguesa. Algo me diz que os dois estavam lá. Dito e feito. Seca para comer um Pastel de Belém, o menino Lucas me avisa que não tem mais nenhum dos 30 pasteis de Belém, porque estão todos no estômago do Urso. Acho que é só nessas horas que você tem vontade de que seus personagens não sejam tão vivos assim....

5 comentários:

ortiz disse...

Fiquei com mó diarréia........

mal ae!

Mari disse...

jejejeje. Bem feito. Custava deixar um só p/ mim??? Guloso da porra!

Kel disse...

É isso aí, madame Serrano, bem-vinda, de novo, e sempre. Seja onde quer que vc e seus personagens andem, saiba que vai ter sempre alguém olhando para ver onde vocês vao parar...como eu, mesmo à distância.
Beijos e valeu pelo passeio de ontem. Que guai, tía!

Tatti disse...

é sempre uma delícia, acordar e ler seus textos. amei, idiota!
me deu vontade dos pasteis de belem.
te amo

Luís Pereira disse...

Lembrei daquele filme "Uma mente brilhante".